Presidente francês e primeiro-ministro espanhol reagiram às declarações de Andy Burnham, que admitiu pela primeira vez a possibilidade de Londres voltar a integrar o bloco europeu.
O Reino Unido poderá voltar a fazer parte da União Europeia? A hipótese, que durante anos pareceu politicamente distante em Londres, voltou esta quarta-feira ao centro do debate depois de o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, admitir que um eventual regresso ao bloco deve ser considerado entre as opções para o futuro da relação entre o Reino Unido e Bruxelas.
A resposta de Paris e Madrid não demorou. Durante uma conferência de imprensa conjunta em Madrid, o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, disseram que o Reino Unido seria recebido de volta caso os britânicos decidissem avançar nesse sentido.
“Bem-vindos de volta”, afirmou Macron, considerando “muito boas notícias” a abertura de Burnham à possibilidade de regressar à União Europeia. O Presidente francês acrescentou que se trataria de uma boa decisão e garantiu que a França estaria disponível para ajudar a tornar esse processo possível.
Sánchez adotou uma posição semelhante e afirmou que Espanha receberia o Reino Unido “de braços abertos” caso Londres decidisse voltar ao projeto europeu. O chefe do Governo espanhol considerou ainda que o Brexit representou uma perda significativa tanto para os britânicos como para a União Europeia.
Burnham coloca várias opções em cima da mesa
As declarações dos líderes francês e espanhol surgem poucas horas depois de Burnham ter admitido, numa entrevista à BBC, que Londres deve analisar diferentes modelos para o futuro da relação com a União Europeia.
O primeiro-ministro britânico colocou em cima da mesa várias possibilidades: manter o atual relacionamento, aproximar o país de Bruxelas através de uma união aduaneira, procurar um regresso ao mercado único ou, no limite, voltar a integrar a própria União Europeia.
Burnham defendeu que cada uma das opções deve ser analisada em função da sua viabilidade e das respetivas vantagens e desvantagens. O primeiro-ministro pretende apresentar diferentes possibilidades numa futura cimeira entre o Reino Unido e a União Europeia, prevista para novembro.
O líder trabalhista já tinha defendido anteriormente uma aproximação mais estreita à Europa. Agora, porém, foi mais longe ao admitir explicitamente que “ir até ao fim” e regressar à União Europeia é uma possibilidade.
Dez anos depois, Brexit volta ao centro do debate
O debate surge precisamente no ano em que se assinala uma década desde o referendo de 2016 que determinou a saída britânica da União Europeia.
O Reino Unido abandonou formalmente o bloco em 2020, depois de mais de quatro décadas de integração europeia. Desde então, sucessivos governos britânicos procuraram redefinir a relação com Bruxelas, enquanto os efeitos económicos e políticos do Brexit continuaram a alimentar a discussão interna.
Burnham afirmou esta quarta-feira que, na sua avaliação, “o Brexit causou mais danos do que benefícios”, defendendo que o país não pode passar mais uma década sem decidir claramente qual pretende que seja a sua relação com a Europa.
Apesar da abertura do primeiro-ministro, não está em causa um processo imediato de reentrada na União Europeia. O Governo britânico está ainda a avaliar diferentes modelos de relacionamento e qualquer eventual regresso exigiria um processo político e institucional próprio.
França e Espanha querem uma Europa mais unida
A aproximação ao Reino Unido foi apenas um dos temas discutidos por Macron e Sánchez durante a visita de Estado do Presidente francês a Espanha.
Os dois líderes defenderam também uma maior coordenação europeia perante desafios económicos e geopolíticos, incluindo a necessidade de proteger a indústria europeia da concorrência chinesa e de reforçar a cooperação entre os Estados-membros.
Macron e Sánchez defenderam ainda uma maior unidade europeia num momento marcado por conflitos internacionais e por divergências internas sobre o futuro do projeto europeu.
Para já, Londres não apresentou qualquer pedido formal para regressar à União Europeia. Mas as palavras de Burnham e a reação imediata de Paris e Madrid mostram que a hipótese que nasceu com o Brexit como uma impossibilidade política voltou a fazer parte da discussão sobre o futuro da Europa.






