Estudo encomendado pela DE-CIX considera que a região reúne uma combinação rara de conectividade, centros de dados e cabos submarinos para responder ao crescimento da inteligência artificial.
A Península Ibérica está a ganhar peso no mapa mundial da infraestrutura digital. Um estudo da Dstream Group, encomendado pela DE-CIX, considera a região a primeira “capital digital” distribuída do mundo preparada para as exigências da inteligência artificial (IA).
A conclusão assenta numa particularidade geográfica: em vez de estar concentrada numa única cidade, a infraestrutura digital ibérica funciona através de vários polos interligados, com Madrid, Barcelona e Lisboa a assumirem o papel de principais hubs.
O estudo, intitulado The Iberian Distributed Digital Capital: Powering Cloud & AI Through a New Geography of Digital Hubs, foi apresentado em Lisboa, durante a terceira edição do Atlantic Convergence, evento dedicado à infraestrutura digital europeia.
Uma capital digital sem uma única cidade
A proposta apresentada pela Dstream Group rompe com o modelo tradicional de “capital digital”, normalmente associado a uma grande cidade onde se concentram centros de dados, redes e pontos de interligação.
No caso ibérico, a lógica é diferente. Madrid, Barcelona e Lisboa funcionam como um sistema interligado, permitindo distribuir infraestruturas e cargas de trabalho por diferentes pontos da Península.
Segundo o estudo, a ligação entre estes três centros permite combinar diversidade geográfica com uma conectividade de baixa latência, característica particularmente importante para aplicações de inteligência artificial e outros serviços que exigem grandes volumes de dados.
35 cabos submarinos e mais de 100 centros de dados
Os números ajudam a explicar a aposta na região.
A Península Ibérica dispõe atualmente de 35 cabos submarinos ligados a 20 pontos costeiros, além de 12 grandes redes terrestres, 13 pontos de troca de tráfego de Internet e mais de 100 centros de dados.
A rede é complementada por mais de 800 redes de telecomunicações. Entre Madrid e os dois principais hubs costeiros de Barcelona e Lisboa, a latência situa-se entre 7 e 8 milissegundos, permitindo uma circulação rápida de dados entre os diferentes pontos.
É esta combinação que, segundo o estudo, permite tratar a Península como uma infraestrutura digital única, em vez de um conjunto de mercados nacionais separados.
Sines também entra no mapa
Embora Madrid, Barcelona e Lisboa sejam identificados como os três grandes polos, a infraestrutura não se limita a estas cidades.
O estudo destaca também Valência, Bilbau e Sines, além das regiões espanholas de Aragão e Estremadura, como pontos complementares do ecossistema digital ibérico.
No caso português, Sines assume particular relevância pela sua posição na rede de cabos submarinos e pela capacidade de acolher infraestruturas digitais de grande escala.
A importância da região tem vindo, aliás, a crescer. Em julho, um estudo da CBRE apontava para 4,5 GW de capacidade IT potencialmente executável a médio prazo no mercado ibérico de centros de dados, depois de a capacidade ter mais do que quadruplicado desde 2019.
Quase 9 GW de novos centros de dados
A inteligência artificial está a acelerar esta transformação.
Segundo o estudo agora divulgado, estão previstos quase nove gigawatts (GW) de novas instalações de centros de dados na Península Ibérica nos próximos anos. A expansão responde ao crescimento da computação em nuvem e, sobretudo, às necessidades cada vez maiores de processamento associadas à IA.
A localização da Península também representa uma vantagem estratégica. A região funciona como ponto de ligação entre Europa, América, África e Médio Oriente, permitindo que os dados circulem entre diferentes continentes através de uma infraestrutura integrada.
Portugal e Espanha já procuram reforçar posição na IA
A aposta ibérica não se limita à infraestrutura privada.
Em março, os governos de Portugal e Espanha acordaram estudar uma candidatura conjunta para acolher uma das primeiras gigafábricas europeias de inteligência artificial. O objetivo é combinar capacidade industrial, investimento, talento tecnológico e infraestrutura para reforçar a autonomia digital europeia.
A própria Comissão Europeia identifica a expansão da capacidade de computação, dos centros de dados e das infraestruturas de IA como uma prioridade para a soberania tecnológica europeia.
O estudo da Dstream Group surge, assim, num contexto de forte expansão da infraestrutura digital na Península. Para Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, a configuração ibérica apresenta características que a distinguem de outros grandes centros digitais mundiais.
A ideia é simples: a próxima grande capital digital pode não ser uma cidade, mas uma região inteira — e, segundo este estudo, a Península Ibérica está a posicionar-se para ocupar esse espaço.







